segunda-feira, 15 de setembro de 2014

CORDIALIDADE DOMÉSTICA APLICADA

-CENA 1: Pai, após almoço preparado-servido-e-tudo lavado pela mulher “está conosco há tanto tempo que já é da família”, dirige a palavra a seu filho caçula, Pedro.

Mandou compras cigarros com o motorista da família.
Para o pai, aquilo fazia sentido, pois queria dar um certo ar de autonomia ao adolescente sempre protegido.


-Pois que compre tu, seu-seu-seu-seu...

[o xingo pichado no muro da garganta.
Quis gritar milhões de letras amontoadas.
Não se lembrou se V de vaia é sibilante ou fricativa.
Foi procurar no grande dicionário atualizado na biblioteca da casa.

Caminhou longos corredores até chegar à imensa sala.
Ali, tantos eram os livros que resolveu buscar outros meios.
Pegou seu iphone último lançamento,
acessou a internet,

digitou sua questão.
-Ah, mas é claro!]

Voltou para gritar com a consciência de estar seguindo corretamente a gramática;
sem violentá-la;
transgredi-la;
rasurá-la;
rememorando as boas aulas comportado na carteira do colégio branco particular.
"V-labiodental-fricativa, repita comigo, Pedro Henrique"

Na sala de estar, em frente ao pai para gritar, antes que a letra consciente escapasse de seus lábios, pode ver pela janela a filhinha mais nova da mulher “já é da família” sozinha, pequenina, apertando firme o dinheiro na mão direita, subindo a rua em silêncio a caminho do bar.

(nova versão do Quanto Vale? - escrito publicado em 23/06/2014)


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