domingo, 28 de agosto de 2016

VISIBILIDADE LÉSBICA: SEMPRE FOMOS HISTÓRIA



armaram para nós todo um esquema perverso
de exílio na Sicília
mas éramos Safo
e em ilha flutuamos

festaram alegrias querendo nascente varão
"nada falso, nada artificial"
mas éramos Greta Garbo em Rainha Cristina
e da coroa abdicamos

excluíram nosso voto
republicano-democracia
mas éramos Jane Addams
com militantes sufragistas

expulsaram-nos
- também -
do movimento feminista
mas éramos Rita Mae Brown
exigindo aceitação

retiraram de nós
instrumentos possíveis
mas éramos Audre Lorde
e já sabíamos que as ferramentas do senhor
nunca vão desmantelar a casa grande

impuseram em nós
padrão beleza hegemônico
mas éramos Zanele Muholi
foto-focando-nos em primeiro plano

planejaram para nós
subserviência escravocrata
mas éramos Ellen Oléria
bradando minha cons tchi tchi
cons tchi tchi
consciência negra

desejaram para nós
nossas vidas todas desmanteladas
jogadas na vala
enterradas na fossa
mas éramos Maria Bethânia
que qualquer brisa verga
mas nenhuma espada corta

legislaram para nós
toda uma constituição de recato do lar
mas éramos Cássia Eller
avessas às feminilidades
performando nossos corpos
nossos gostos
bem-estares

oraram para nós
nos mantermos trancafiadas
presas celas
arcabouços
mas éramos o que hoje nos tornamos
beijando quem bem queira
em plena praça pública

historicizaram de nós
como sendo inexistentes
apagadas as trajetórias
eliminadas as vivências
mas somos nós mesmas
aqui
agora
a contrapelo
construindo narrativas
trazendo à tona
todas estas que nos antecederam

buscaram amputar em nós a potência da fala,
nos impondo silêncio
mas éramos eu mesma
- Bárbara Esmenia -
abrindo a boca
soltando poesia
eco-alto pra tudo quanto é canto

nos quiseram invisíveis
mas nós
- lésbicas -
sempre fomos história




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