quarta-feira, 31 de julho de 2019


a gente podia
tá tudo agora envolvida
umas em cima das outras
algumas nos lados
várias embaixo

tantas ao longe observando como é bonito demais
e
como acender essa vela aqui
faz bem pra contemplar
essa cena privilegiada

a gente podia
voltar naquela noite
e contar de verdade
em quantas estávamos
quando
chegaram mais duas
e
perdemos contagem
na memória café da manhã ainda juntas
[alguém disse oito,
mas a gente se lembra
que éramos ímpar]

e quem se importa com números?

a gente podia
voraz
como naquele poema
"não há nada" (nothing),
de Cheryl Clarke
- que foi onde eu descobri
que "comer-lhe o cu"
e
"chupá-la na frente de sua outra amante",
e
"mostrar-lhe o prazer no perigo"
e
"deixá-la ver eu comer minha outra amante"
tinha nada que ver com
monogamia
e
bem podiam ser versos de poesia
e
me fez saber muito mais
de possibilidades
grupais
- e escritas poéticas -
que
aqueles sonetos barrocos aprendidos na escola

a gente podia
seguir assim dia a dia
no desapego mesmo
sem acorrente
sem possessão
sem as merdas todas

só um grupinho amante
que se deseja|gosta|ama|trepa
e
se dá|sente prazer nesse agora

vivas no contemporâneo
...
#tsunamisapatão [um poema por dia de 29/07 a 29/08, Dia Nacional da Visibilidade Lésbica - participe!]
.
[tradução dos versos de Cheryl Clarke, entre aspas, é de Thamires Zabotto]




manual para atravessar esses tempos
1.

ideal seria
- talvez -

a gente tudo se encontrar assim,
numa virada final de semana,
num tanto mulheres presentes
y mergulhar em afetos, em toques, risadas.

ideal seria
- quem sabe -
rejeitar noção normativa
que insistiu macular
nossas corpas
nossas vidas
as origens
os chãos vivos
y as bocas.

ideal seria
- ainda, veja só -
recusar as intrigas
- que é ela tecnologia do capital
excluir conceito inimiga
- que é ela aparato machista
y fazer das amizades
possibilidades do devir erótico
- que não é só sobre sexo não viu.

[ mas se a gente também quiser que seja pode,
é
y
será ]

ideal seria mesmo
cada qual exercer liberdade responsável
y ter regaço para ser acolhida
no regresso pra partilhar uns cuidados

fato é que
seria mesmo-mesmo ideal
cada uma-uminha mulher
na vivência trajetória sua
existência esse mundo
nutrir em corpo de outra
seiva, caroço, fibra, caule, fruto, tronco, semente, raiz, copa, cerne, casca, folha
y ser ela mesma todinha
propulsão coletiva e si só

já que os tempos
favorecem os desânimos
estimulam pras mortes
seremos nós as escolhas vidas
pra não falhar na magia da cura

[com a consciência viva do tempo-histórico-conjuntura-brasileira em que estamos fazendo isso]
#tsunamisapatao [um poema por dia durante os 30 dias que antecedem o Dia Nacional da Visibilidade Lésbica]







não foi dado espaço ao plexo
para expandir-se além do que dentro.
.
coube à ela
- regente cabeça -
alargar estufa cardíaca,
.
y peles
y ossos
y pelos
.
tornar-se-ando raio pralém superfície,
fincando desde céu hasta solo.
.
resultado:
desaguar chuva en maíz.
.
en feitio protoagrícola:
tempestade-pós-solar-y-raíz.
🍃🌩️




{ do que chamam inferno astral }
.
se é mistério
a gente agarra cada lâmina
que surgida não-d'agora
- no quase trinta-e-cinco -
e acolchoa lado pendente
de um peito esquerdo
pra firmar
seio com seio
.
pois que no pós-trinta-caminho-quarenta
o que se expõe de um corpo vivo
não menos que isso
apresenta-se
em
c o r a g e m
.
nos torna há tantas inteiriças
.
concretiza existir corpo histórico
e se move
- mais que tudo -
sabendo-se de impulsos,
invencionices,
rala-labuta,
folias
y
memórias.



quinta-feira, 18 de julho de 2019


"nunca foi só pelo amor.
.
e sempre que escutava ser amor palavra-apelo para justificar as vivências lgbt+ torcia a cara de tal maneira que qualquer que fosse criancinha a passar e flagrá-la na expressão diria de imediato à mãe que aquela ali comeu e não gostou.
não era só pelo amor.
pois que já tinha comido e tinha gostado num tanto sendo rompante pralém do que tinha vivido até então que cambiar sentir-atração, sentir-desejo, sentir-tesão pelo sentir-amor não cabia em acúmulo o que na soma era não.
e quando escutava que todo mundo deveria respeitar pessoas dissidentes sexuais porque, afinal, é só amor, se lembrava do corpo vibrando à toa, metido em pensamentos com aquela que nem sequer amava. e se lembrava das histórias de orgias que as amigas e ela vez e outra se metiam - que não tinha nada que ver com amor não; nada que ver com esse da caretice, por vezes disfarçada de apego, de controle, possessão.
mas que tinha que ver com amor outro-ângulo (ou só amor mesmo, no profundo léxico significante), coletivizado, reflexo de um tempo buscado, 'inda que nem sempre alcançado não.
.
e pensava se esses que justificam que vivam os corpos lgbt+ pela via do "é só amor", se defende-os também na via do desejo, na via da sacanagem, na via da putaria. nas vias-chave que a heteronorma masculina sempre se fez pertencente na surdina, no privado, mantificada pelo só amor chave cristã casal-dupla para todo o sempre amém.
.
nunca foi só pelo amor.
e se perguntava em silêncio se isso fazia diferença; se com quem-quanta(o)s-como se dorme/transa/fode se faz diferença para o que clamam respeito, para ideal de cuidado, para viver todo mundo sem socos, sem xingos, sem medos. sem corpos violados, interrompidas existências, futuros limados.
.
não.
.
nunca foi só pelo amor não".
.
[notas para um escrita]