quarta-feira, 31 de julho de 2019

manual para atravessar esses tempos
1.

ideal seria
- talvez -

a gente tudo se encontrar assim,
numa virada final de semana,
num tanto mulheres presentes
y mergulhar em afetos, em toques, risadas.

ideal seria
- quem sabe -
rejeitar noção normativa
que insistiu macular
nossas corpas
nossas vidas
as origens
os chãos vivos
y as bocas.

ideal seria
- ainda, veja só -
recusar as intrigas
- que é ela tecnologia do capital
excluir conceito inimiga
- que é ela aparato machista
y fazer das amizades
possibilidades do devir erótico
- que não é só sobre sexo não viu.

[ mas se a gente também quiser que seja pode,
é
y
será ]

ideal seria mesmo
cada qual exercer liberdade responsável
y ter regaço para ser acolhida
no regresso pra partilhar uns cuidados

fato é que
seria mesmo-mesmo ideal
cada uma-uminha mulher
na vivência trajetória sua
existência esse mundo
nutrir em corpo de outra
seiva, caroço, fibra, caule, fruto, tronco, semente, raiz, copa, cerne, casca, folha
y ser ela mesma todinha
propulsão coletiva e si só

já que os tempos
favorecem os desânimos
estimulam pras mortes
seremos nós as escolhas vidas
pra não falhar na magia da cura

[com a consciência viva do tempo-histórico-conjuntura-brasileira em que estamos fazendo isso]
#tsunamisapatao [um poema por dia durante os 30 dias que antecedem o Dia Nacional da Visibilidade Lésbica]







não foi dado espaço ao plexo
para expandir-se além do que dentro.
.
coube à ela
- regente cabeça -
alargar estufa cardíaca,
.
y peles
y ossos
y pelos
.
tornar-se-ando raio pralém superfície,
fincando desde céu hasta solo.
.
resultado:
desaguar chuva en maíz.
.
en feitio protoagrícola:
tempestade-pós-solar-y-raíz.
🍃🌩️




{ do que chamam inferno astral }
.
se é mistério
a gente agarra cada lâmina
que surgida não-d'agora
- no quase trinta-e-cinco -
e acolchoa lado pendente
de um peito esquerdo
pra firmar
seio com seio
.
pois que no pós-trinta-caminho-quarenta
o que se expõe de um corpo vivo
não menos que isso
apresenta-se
em
c o r a g e m
.
nos torna há tantas inteiriças
.
concretiza existir corpo histórico
e se move
- mais que tudo -
sabendo-se de impulsos,
invencionices,
rala-labuta,
folias
y
memórias.



quinta-feira, 18 de julho de 2019


"nunca foi só pelo amor.
.
e sempre que escutava ser amor palavra-apelo para justificar as vivências lgbt+ torcia a cara de tal maneira que qualquer que fosse criancinha a passar e flagrá-la na expressão diria de imediato à mãe que aquela ali comeu e não gostou.
não era só pelo amor.
pois que já tinha comido e tinha gostado num tanto sendo rompante pralém do que tinha vivido até então que cambiar sentir-atração, sentir-desejo, sentir-tesão pelo sentir-amor não cabia em acúmulo o que na soma era não.
e quando escutava que todo mundo deveria respeitar pessoas dissidentes sexuais porque, afinal, é só amor, se lembrava do corpo vibrando à toa, metido em pensamentos com aquela que nem sequer amava. e se lembrava das histórias de orgias que as amigas e ela vez e outra se metiam - que não tinha nada que ver com amor não; nada que ver com esse da caretice, por vezes disfarçada de apego, de controle, possessão.
mas que tinha que ver com amor outro-ângulo (ou só amor mesmo, no profundo léxico significante), coletivizado, reflexo de um tempo buscado, 'inda que nem sempre alcançado não.
.
e pensava se esses que justificam que vivam os corpos lgbt+ pela via do "é só amor", se defende-os também na via do desejo, na via da sacanagem, na via da putaria. nas vias-chave que a heteronorma masculina sempre se fez pertencente na surdina, no privado, mantificada pelo só amor chave cristã casal-dupla para todo o sempre amém.
.
nunca foi só pelo amor.
e se perguntava em silêncio se isso fazia diferença; se com quem-quanta(o)s-como se dorme/transa/fode se faz diferença para o que clamam respeito, para ideal de cuidado, para viver todo mundo sem socos, sem xingos, sem medos. sem corpos violados, interrompidas existências, futuros limados.
.
não.
.
nunca foi só pelo amor não".
.
[notas para um escrita]



sábado, 8 de junho de 2019



não foi para entender o silêncio
que se criaram o cosmos
nem ao menos
gritar entre as galáxias
motivo qualquer para saber-se escutada
.
mas, talvez
nalgum canto
entre a força do que calamos
e a potência do que podemos gritar
haja ainda fôlego
num descomum exaltado
que movimente as vozes
.
que não são sempre palavras
(arrepare)
mas que fazem das vidas
propulsão para seguirem existindo



Pra Queda Heteropatriarcal: Teatro das Oprimidas e Estudos Lesbofeministas



Quando pensei em realizar a oficina Pra Queda Heteropatriarcal: Teatro das Oprimidas e Estudos Lesbofeministas, a ideia era essaqui mesmo: juntar um bonde de sapatãs e mulheres - sobretudo pralém da normativa sexo-afetiva, pralém da heteronormatividade compulsória - ou ao menos com o desejo de investigar isso e questionar enquanto estrutura mesmo, pralém do desejo sexual; e pralém dessa coisaí de amor romântico que é apreço atrelado ao patriarcado estrutural também, na manutenção do poderio sobre outras corpas - bem a cara da colonização isso. Pralém.
.
E, nesse coletivo, investigarmos formas, ritmos, sons, gestos, possibilidades tantas de estudarmos as expectativas y regras sobre nossas corpas y o tanto possível enquanto propulsão libertadora a partir de um pertencimento a essa mesma corpa, essas mesmas nós mesmas. Esse mesmo tanto potente dentro de nós que é força pro motor da queda heteropatriarcal pelo qual nos empenhamos nesses encontros ainda iniciais, ainda recentes, mas que já pululam no tanto em nossas mentes. Construção de novos imaginários.
.
Se Octavia Butler, numa de suas obras nos indica que somos hoje o que nossa/os ancestrais sonharam y, podada/os à guisa de processos escravocratas, somos nós hoje esse antes-futuro tempo sonhado, eis que a gente se encontra numa oficina de teatro das oprimidas para pensar sim a queda heteropatriarcal, para estudá-la, sorrateirá-la, criarmos dinâmicas de destruição.
.
Que nem são novas não, são é antigas mesmo. Sipá foram feitas pelas caçoaimbeguiras quando chegada europeus cá abya yala, sipá foram feitas icamiabas quando enfrentaram y derrubaram espanhóis caracara, sipá lá noutro continente foram feitas quando em ilha lesbos elas se roçavam.
.
Sipá somos nós mesmas, nesse tempo-agora, nesse ciclo práxico-teórico, sonhando os imaginários para os futuros. Sonhando-os y construindo-os, na mesma dinâmica que fizeram as ancestrais. E que sorrimos vivas na foto hoje justo-justinho por elas.
.
Seguimos criando.
Gerando epistemes para tempos à chegança no pós-nós.




{ sobre atos y curas }

dá igual
caminhar ruas | marchar atos
pautando a história
y
rebulir na cama agarrada à corpa de uma mulher que desejo
apertá-la em toda extensão da pele
ajustá-la entre minhas polpas
cercar de saliva os arredores de suas extremidades

se isso for
- y é -
pra cura potencial
pra salvar sanidade mental
pra recompor vigor corporal

dá igual
se pautamos a história pegadas
entre gritos liberdade em cada dedo afundado nas vincas

pois que
: afetos
y curas
y gozos
y risas
y trocas
nós juntas no tempo

retoma forças para
- dia seguinte -
sermos nós a
caminharmos ruas
y
marcharmos atos

curadas
y
vivas