quarta-feira, 9 de agosto de 2017

D E S A P R E N D E R A M V O C Ê S



eles tudo buscando o aprendizado
-engodo da fórmula felicidade desconhecida

só que nós: 
é que não

estamos buscando é
D E S A P R E N D E R
limpar de nossos poros cada enjoo imputado-cabeça
disso tudo que vocês chamam vencidas na vida
que vocês passeiam europas e os nortes
e se faz olhar de cima tudo que é corpo que não são os seus

a gente quer esfregar bem a pele
- não pra tirar contornos melaninas diversas
-não pr'afinar os volumes
{ as dobrinhas
{ as grandes mãos indígenas ágeis na caça

é esfrega-e-roça pra tirar todo resquício
-isso tudo escorrendo ralo-abaixo
-isso tudo carcomendo o que natura
-isso tudo bem esgotado qu'está pútrido
[ vocês fedendo tudo de longe,
isso a gente já aprendeu cheirando vocês]

quando vocês dizem ser aprendizado
dizer que ter muitas casas é sinônimo sucesso herança
eu, minha-mente, visualizando lombos surrados nas antigas
- e ainda atuais -
e rejeito esse ensinamento
:: quero desaprender ::

quando vocês dizem ser aprendizado
cursar medicina alto grau universidade
eu que recordo os trotes machistas,
os riscos banheiros racistas,
os maus tratos povo nosso em hospitais
-não, não busco fazer de mim o que é isso
:: quero desaprender ::

quando vocês dizem ser aprendizado
constituir família pai-filho-mãe-filha
eu olho para as minhas
-que são nossas-
e só encontro formas outras
-tão múltiplas
que não contempla esse ensinamento
:: quero desaprender ::

quando vocês dizem ser aprendizado
suplicar reintegração de posse
e dizer que o que é de vocês é de vocês
eu me mantenho no grupo punho esquerdo erguido
cantando que o que é teu já tá guardado,
e o que é nosso,
- são muito mais de 500 os anos -
e na reintegração d'um país no todo
que venha 'demarcação já' cada cantinho de terra que cêis pisam.
isso eu não aprendi com vocês
-essa reintegração terra tomada que vocês reivindicam
::quero desaprender::

quando vocês dizem ser aprendizado
se comportar bonitinho que é no mérito que se conquistam as coisas
eu olho pr'este seu vocábulo colonial
e na palavra conquista
-que é a mesma que tu lança para o jogo do que tu chama de amor
-romântico, ainda-
eu vejo são
PRI
VI
LÉ
GI
OS
desse corpo crescido bem nutrido
dessa escápula erguida alargada 

e nos corpos dos nossos
-tão mirrados
a gente batalha pra não ser exemplo heroísmo individual,
mas por saber qu'efetiva-se neste país
- que ainda se chama Brasil,
e é com S,
e não está à venda -
haja qu'existam políticas públicas
que se ateiem às reparações
his
tó
ri
cas

e que talvez seja essa
- H I S T Ó R I C A -
palavra que tu não aprendeu
pois no montante do que a colonização te ensinou
ainda acham que vocês sujeitos nasceram-e-cresceram no hoje

e isso,
pode deixar,
eu não quero desaprender
pois é na
H I S T Ó R I A
q'eu encontro exemplos de luta
de todas e todos que
- um dia -
desaprenderam vocês





quarta-feira, 26 de julho de 2017

ENGOLINDO O MUNDO COM NOSSOS CORPOS

foto: Sheila Signário

engolida das palavras do mundo:
-o que de meu silêncio foi bocadentro naquele membro que come?


conjugação do verbo
:::
parir

eu paro um cotidiano
desejado inverso
no que
__ traço __
cartografia
de cada falange
tocando meu corpo
no onde
possessivo { meu }
não desalinha
pronomes { nossos }

eu paro uma cartilha
n'exercício d'explicação
ao mundo
de todo um como¹ ² devido
¹advérbio indicado maneira|modo
²conjugação verbo; sinônimo [quase] de engulo

eu paro um novo corpo
que de princípio
é meu o mesmo
- de sempre -
no qu'agora ressignificadas
:::
texturas
volumes
gorduras

eu paro uma vênus que é negra
amor esbaldado azeviche
consistência se faz
passe livre
funkcizando
catracas que travam

alinhavo minhas
:::
mãos
bocas
coxas
barrigas
pés-firmes
todo volume
e u
p o r
i n t e i r a
a l a r g a n d o
e s t e n d e n d o

eu paro um abajur cor de carne
bem aceso momento meu gozo
minha pele pegada mãos suas
eu me vendo
- em luz viva -
ser sexo 

eu paro,
no tanto,
- não cabe -
verbo este que não existe
conjugação língua portuguesa

no parir
:
eu paro
tu pares
ela pare...
nós que somos movimento do mundo
turbina
motores
arrancos
não paramos a revolução

nós...
{ conjugação existindo somente em plural }
parimos
com canela-e-açúcar

nós...
parimos
nossa
ZONA AGBARA


segunda-feira, 24 de julho de 2017

...onze anos me espera...


sol quase tombado poente
nem sei que lua alumiava céu

mas para tu pouco importou
-tombo te levando fim de tarde
meio rua
no ir embora sem saber dos astros

nós casa aguardo
espera de chegança sempre
- mãos cheias produtos revenda -
para pedido d'esfiha
pois sexta-feira assim era

mãos minhas tinha kundera
insustentável leveza do ser
- livro este nunca mais retomada leitura
literatura já não mais sentido
quando d'arranco se vãos as vidas
-ida sua no repentino

de tempos idos
- e já são anos os onze -
mirar imagem das antigas
como quem cavuca nas lembranças
algo que não encontra por completo
em nervos paredes-da-mente

- parece (des)aparecido os concretos
mas ainda tem tu batendo em afetos

-tu nesse olhar 'trás dos óculos
-nessa barba esconde internos
-o rir da sanfona que nem tocava
-mas a olhava por longos
recordando em menino os desejos

por vezes retornado em lampejos
de saber que corpo pressente mais que memória

o tempo-perverso
devastou tantas lembranças
dessas que valem a vida
e emborcou espaço para
aleatoriedades várias que crio

primeira vez esta
materializo eu tu em escrita
d'um dia que nunca mais retornado em detalhes
d'uma vida que exigiu/exige corridas várias cidades

só que o tempo(também)-generoso
e é pai...
saiu poema pra tu.
que,
sim,
nem dizia em palavras
inspirações qu'eram vidas.




quarta-feira, 5 de julho de 2017

Tríptico da Coragem + Interno Destoante

| i. acidez |

reconhecidos privilégios
não lavadas palmas-mãos
- deixemos-as para as firmezas de agarros no porvir -
- em após -
posso
ainda reclamar do que tenho?

| ii. esvaziada |

consciente que tenho peito
na mesma medida que tenho lágrimas
- um bombando gotícula ao outro
duplo-fluxo-contínuo
se faz
coexistência

| iii. insubmissa |

por saber de aparência
ser pralém performativa
corpo faz-que atua vida
mas tá que sangrando nas beiras
criando pocinhas nas rugas internas

| iv. baque |

alerta
!
que tiro-vem-bomba
não salva quem corre insuspeito
é preto recebe no peito o rajado
emboscada na mata
destemido não salva
ser mestiço ou retinto
a polícia
ela
¬m¬
¬a¬
¬t¬
¬a¬



quinta-feira, 29 de junho de 2017

português colonizante
foi por via grande mar


é este idioma ilhado
em que
- a esmo -
pena a encontrar eco ligeiro
em proximidades

circulo um globo
amparando nas quinas
- aportando no que
são cus do mundo
| aquele excretor que não reproduz,
que não gera frutos,
que merece extermínio |
dizem eles

dito tal qual
mesmo idioma falado
mesmas línguas falantes
homens-brancos falácias
chegadas caravelas

alguém de angola,
te escuto de cá?
ouça-me macau,
é eco baixo-linha-do-equador quem responde

chegança em voos atuais
o que no antes
- feito de mares | beira-costas -
com cargas-cargueiros
- gente humana transportada,
amontoada,
pilhadeira -
no idioma dito
fez assombro 

ei moçambique
veja como redigimos linguagem mesma

¡ guiné bissau !
- essa exclamação anterior a ti não existe idioma este

timor leste
que antes soprado tivessem mesmo sido ventos do leste
- criador de tempestades que são -
a derrubar embarcações
desaportar submersos
"varrei os mares, tufão!"

são tomé e príncipe
se ser mar
não faz borrão
comunica cá tua fala insurgente
teu anseio verborroso
- cabe em língua portuguesa?

cabo verde
amplia minha ressonância poética
para tocarmos nas verves
sentidos pralém das palavras

apartadas na fala
expilo vozes no sul-do-sul
e só escuto espanholados
colonialidades alhures

pra voz ecoar
latinoamerica
há que se transpor verbos,
declinar letras,
assimilar adjetivos
| raiz latim é a mesma, me assegura? |

antes no todo anterior
nosso eco soante
em mil-milhares-miliões
que indígenas (várias) são línguas

comunico meu silêncio interno
com as caras lindas desta gente negra
os andes ecoam
mesclam-se cholitas
grandes mamas
e xamãs que são várias

cruzança atlântico
pralém materialidade pegável

: é poesia que nos chega de lá
/ é poesia que de lá vinda cá :
: é música viva | nos chega de lá
/ é música fera | de lá vinda cá :
: é dança - são corpos | nos chega de lá
/ são corpos - que dança | de lá vindos cá :
é texto - intelecto | nos chega de lá
/ são mentes pensantes | de lá vindas cá :