sábado, 21 de fevereiro de 2015

PISA, MENINA

foto: Lais Borgom
Era eu água brava
fervo de compor nos picos

-cachueirim desabesta nas muléstias quentes
visse?

pingo revolto de disse -oi, caiu foi?

bateu lá nos grelhos
ensopou tampanela;
só gritinho torneado
querendo o que não tinha mais não

-aparte
-aparte a vida, belinha
-essa aqui já se finda
num sabe?

Era a menina batismo
menina tigela com aguinha padre-bento
líquido gela barriga-vermicida

zóinnnn aporrinhado de tanto olhar vida passar
gente passar
maré passar

só o que tinha fresta foi passou longe, sabiste não?

ela ficou lá parada beira-estrada
desacreditando de tudo
bracinho cruzado
pé batente chão de terra

num esperou nem vento amansar pensamento ruim
foi logo botando sandália
- estrada longa era aquela -



quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

COR-POR DE BAILE


Meu corpo dança
Mi cuerpo baile
Meu corpo ginga
Mi cuerpo pode

Mon coeur quer cor
compor nos poros
Por cor
colôr
technicolor

Pirotecnia
do por fagia
fã gosto
orgia
camadas
raras

Quem mim não vê
com-por
meus gestos
ritmos quentes
a mar
por-metros

de-ter
disparos 
de mon
- en couer -

Incor
porados
de mi
los poros

escrita fina
cali-
gramáticas
por-no
nos
nus
con las
grafias


quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

O QUE VI EM PARATI - 1. DAS PEDRAS


foto: Lais Borgom

Se eu pedra de Parati fosse
Pedra de fala
                 não polida
mas pedra áspera
                            pedra que quica

Teria muito o que gritar
dos murmúrios ouvidos
das mãos pretas que me carregaram
centro histórico acima
centro histórico abaixo

do que hoje são ruas
              caminhos
                       e vias

de muitos pés brancos
- importadas sandálias -

me pisando
me lixando
massacrando
me cuspindo

Eu pedra
nessa minha imobilidade sem fala
Reajo?

Meu troco desnível no caminhar
Meu troco dificuldade da pressa
Meu troco impossível salto alto
Meu troco deslize de quem rejeito

Meu pouco troco de micro cosmos

Meu troco nada de eu sozinha

Pudessem elas
                            - outras pedras -
ouvirem minhas memórias

Pudessem elas
                         - velhas pedras -
me contarem sobre as suas

seríamos muitas
                          - quem sabe se todas -

obstáculos firmes
prontas para os tropeços
destas solas alheias
que transitam alhures
em terreiros não-seus

Quicaremos.
Sim, nós quicaremos.

nosso quique rocha
nosso quique estanque
nosso quique sangue

nosso quique pedra
desta Parati que é preta.



sábado, 27 de dezembro de 2014

VEIA MINHA

Crédito: Fábio Feltrim

Minha veia artística
é artéria aorta

Bombeia fôlegos entre as camadas,
Pulsar de sangue nos poros quentes,
Correr de fibras fortalecidas.

Veia artística minha
é a velha aorta

Pico de artes nas veias grossas,
Seringa inflada contaminaccio,
Fina agulhada penetrar fundo.

Veia minha artística
é a vero aorta

Essência-sopro de mim respiro
Raiz d'artérias distribuídas
Caixa torácica ventricular.

Bombear d'esporo-reesperança,
Jatos d'estímulos nos braços quentes,
Ânima-vita vigiar constante.

Desafios meus seguir pulsando,
acreditar - bom funcionar,
no que não miro - meu eu interno,
no que me iludo - meu corpo externo,
 Rasgar por dentro - líquidos-jatos.



quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

CORRESPONDÊNCIA PARA ANA CRISTINA CÉSAR



Querida Ana,

cheguei em casa mais cedo ontem e desde então me tranquei no que não cabe no mundo.
Não sei agir na precisão do resumo contido que você me oferece.
A prolixidade me toma forma tal que desato na persistência das palavras.
Fiz amizade com uma nova garota e desde então não paro de atentar-me aos seus movimentos internéticos.

A vida é acelerar.
Meu corpo batida discorrendo sobre as possibilidades do porvir.

Ouvi boatos de que você deslizou saboneteira abaixo.
Não acreditei nisso tudo.
Cerrei meus olhos-luz que enxergavam a notícia-fato na tela.

Voltei ao livro teu que me vale bem mais que sua vida real.
Me desculpe, bela Ana, mas é para isso que serve a literatura. A vida escrita tanto-fazendo a realidade vivida.

Sua profundeza merecendo bem mais do que abismo-abaixo a janela revela.
Meu corpo-parapeito esperando seu corpo jogar-se que te agarro.
Pula.
Pula de quina na vida que finda; a poesia, ela há de ressuscitar-nos.





terça-feira, 2 de dezembro de 2014

DA INSUPORTÁVEL DESTREZA DAS COISAS NÃO DITAS


O que eu digo não importa.
O que importa é a consistência do meu peso,
meu braço pendente forçando sua nuca.

O que eu digo subimporta.
Meus lábios sem fala,
quietude-abismo da mudez vingativa do que - tenso - não solto.

O que eu digo desimporta
- é meu eu dos dizeres, frases de amantes narrativas -
espécie de pouso mudo nos toques que não encontro.

Das coisas ditas de importância restaram-me somente três:
silêncio,
calância
e
zumbido

Do silêncio aprendi com as maritacas:
para saber quando irritam, é preciso compará-las ao não-som, à ausência do volume notado.

Da calância articulei com os belicosos:
cada gesto de meu corpo representa a prontidão precisa do alerta a qualquer instante.

Do zumbido desaguei com os canos:
a água borbulha-pressão na espera; os dedos que abrem torneira esporro.

Repara bem no ambidestro silêncio.
Pois o que já digo é matéria de banalidades cotidianas.