sábado, 6 de agosto de 2016

quarta-feira, 3 de agosto de 2016

[ chore um rio por nós ]

foto: Daisy Serena


chore um rio por nós

que
a cada vivo originário desta terra
- Abya Yala do todo pulsando-em-gramíneas -
ela
[ mãe solo ]
sentou borda
barro caduco
e²scorreu seus os olhos pelos entres
- e por cada ser vivente
[que sequência matado,
entrecortado,
ensanguentado em chão-ancestro;
de europas-brancas-mãos-torpes]
derramou suas as lágrimas
e
deslizando rusgas
acumulou em poças de formação d'rios

brotaram-se de vez
o Francisco
o Negro
Iguaçu [que significa água-rio grande, cê sabia?
Araguaia [que significa rio das araras vermelhas, cê sabia?
Tocantins [que significa bico do tucano, cê sabia?
Paraguai [que significa rio dos cocares, cê sabia?

até Tietê se quiser me lembrar que sou paulistana
[ só que estou buscando amplitude mesmo, alargar pr'América Latina ]

por cada cá originário foram chorados os rios:
em lamento da lida corpo-a-corpo sim
mas também fermento-solo de gota-lágrima-nutrição
pois que sabiam nadar
- e eram bons
- ainda são

é que quando ybytu que é vento se atraca com yby que é terra
pa-dê-gira todo um aiyê
pra nunca mais ser
esquecimento





terça-feira, 2 de agosto de 2016

me beija-acalanto,
                   carinho
pois já eu sabia
deste pouco da trilha
(que nem mais sei se três anos e média é dos poucos)
racha-ria
                           quebranto
e
bem mais do que centro
                                                demonstrasse que é manto


escrito em ares d'Oyá - voo BSB-CGH, 02/08/2016



quinta-feira, 28 de julho de 2016

[ g o s t o ]

foto: Lais Borgom
gosto quando teu toque
ultrapassa o mero sentir
e me atinge na inteligência

me masturbo com tuas palavras
e quando concluis uma ideia
chego ao ápice
ao levar-me junta a tal síntese

minha pré-disposição a entender alerta
com neurônios fogosos
excitados de teorias que você mesma inventa

tudo isso porque
- sabe -
que o que abala minha mente
faz gozar meu corpo inteiro





quinta-feira, 21 de julho de 2016

[ era pra ser ]

era pra ser pouco, pequeno, miúdo
o restinho grudado-fundo do pote
da raspinha que nem sobrou do que ontem

era pra ser tudo mais fácil
te ver dia sol-e-vento
tocar no rosto sorrindo-todos-dentes
dedo fincando em cabelos que não deslizes

era só beijo, mordida, risada
-me chama pra passear -
elogiar os vestidos
dizer que tem fome e que como tem que comer mesmo, tu não quer vir comigo?
rir que é achar graça do novo corte de cabelo
reparar que nas pintas do rosto formam as três marias
e as mãos, se observadas na espera de algo, fazem uma certa fricção quase como se acarinhasse um mamilo
sexo
mais
- pede de novo -
gozo

mas aí a gente acha que pode ser neblina da modernidade
enovelando as visões
pasmacentando tudo
a gente acha que hora ou outra vem - vai vir - vento-fúria redemoinhando os desejos

a gente acha - mesmo - que pode ir junto
que vai ventar pra-lá-pra-cá
que é só questão de conversar-o-tudo
- abertamente [óbvio] porque a gente tem que desconstruir -
- em que século estamos?

mas tá tudo misturando os sentidos
tá tudo esfarinhando no ar
que o pouco que a gente se agarra e acredita
- lá vai que vem semear no que outros -

era para ser muito,
grande,
aberto,
- afinal -
mas a gente tá chamando de pouco
que é pra disfarçar furacões do de dentro

a gente tá chamando de broto
pois vai que semeia
- dá -
e então podemos chamar
mesmo
de
vida