domingo, 3 de janeiro de 2016
sexta-feira, 1 de janeiro de 2016
MÃOS SOLTAS
![]() |
| foto: Lais Borgom |
deixar que mãos soltas vidas
é a mesma propulsão
d'instinto poético
de um quebranto cura
quando me pego em dolores
deixar que mãos soltas vivas
é semelhante troca simbiótica
de elemento tato
nas texturas
d'outras peles
que habitam seres tocáveis/tocantes
deixar que mãos soltas vindas
é arremate tecer
nas (entre)linhas
que se em nós criam laços
apertam costuras
estreitand'os encontros
deixar que mãos soltas vistas
é mirada renovo
qu'enxerga além de
meus olhos insones
de tanto já visto
- quando meus olhos
não quereres
d'olhar
d'o de sempre,
fica mesmo
o qu'é
toque
enxergando
em falanges
os sentires
de
todo -
porque
há mais visão
em cada traço de minhas palmas
do qu'em minha vista turva
cansada do que avista nos dias
sábado, 26 de dezembro de 2015
BORDUNA CURARE [poema para um museu em chama; fogo; lume]
ardeu-me
a língua
em
que
chamas
portuguesas
ardeu em histórico
meu pátrio falar lusitano
ardeu-me
esta fala
de dizeres dominantes
de louvo dalém mares
esta métrica dos escritos
de bem poucos proparóxitos
este enroscar de línguas lambidas
de beiços das casas grandes
ardeu,
mas ardeu foi pouco
o qu'arde mesmo
é histórico não lembrado
é contar
- e sempre,
e todo,
e todo,
e ainda -
as histórias
dos colonos
destes que chegam de lás
e cortam fios de teceres ancestros
arde mais em mim
fala não sempre
tupi
cadê sons
estes nos dias
cadê nomes de bandas, livros
estampas nas camisetas
escuta de sempre em rádios
falas em tevês que não vejo
grita tupi
grita que
quer
viva
em
falar-vocal
mas qu'assassinada
em palavras
portuguesas
agora quer mais que chama
agora quer mais que arde
- me chama, guarani -
- me chama, guarani -
já que arde agora
chama revolta
de fogo floresta
porque a mata
a mata sabe bem
a hora que queima
sabe bem
a hora de agir
sem desespero moderno
sem corrida neoliberal
e se mantemos
esta história
sempre às vias
destes que se dizem poderes
destes que se dizem poderes
aguarda sim
que o que arma
leis naturas
tu nem percebes quando chega fulminante
chega ardendo mesmo
devastando
o que passa
em
frente
pra queimar de todo
retornar
que
em
viver
d'
d'
raízes
minha língua?
só um membro disposto à fala do que aprende nas trocas
meu reconhecimento língua não esta que fala violada
língua apenas herdada
- mais uma do conceito herança que nunca pedimos -
- mais uma do conceito herança que nunca pedimos -
língua chegada em arrancos nos troncos
em espalmadas nas costas
em estupros nossos corpos mulheres
em estupros nossos corpos mulheres
língua usada no mandar
no gritar
no xingar
no pega ela
língua estúpido ibérica coloniza
cadê
cadê agora o choro das labaredas?
cadê agora o choro das labaredas?
o que quero é museu da língua origem
é museu d'oralidade
de registro
de registro
identitário
quero ver o dia
em que não precisaremos chorar
o que é chama dos colonos
- construídas braçais trabalhantes -
quero ver o dia
em que a chama que queima
será a chama de um grito
que chama flecheiros
coral
ventania
cocar
na ponta da lança
borduna
curare
quero ver o dia
em que não precisaremos chorar
o que é chama dos colonos
- construídas braçais trabalhantes -
quero ver o dia
em que a chama que queima
será a chama de um grito
que chama flecheiros
coral
ventania
cocar
na ponta da lança
borduna
curare
sexta-feira, 25 de dezembro de 2015
segunda-feira, 21 de dezembro de 2015
SENTIDA
esse sentido de dentro
materializa-se em gestos
em fôlegos zagaias
em peitos de flechas
transforma o que é corpo
em
cardumes disformes
do que nem que sabe
- sendo eu -
si do mesmo
esse sentido que é vento
- já foi mata um dia -
engolidas das moscas
caçadas c'as sapas
camuflas em folhas
de louvor d'Ossain
tu nem sentes o quant'é profundo
- sendo meu -
si'm mim mesma
- d'o sentir lapidado -
esse sentido parado
- estanque,
catártico -
são meus de momentos
do que vivo e que sinto
- movimentos pra dentro,
par'além das vivências -
mas
se se apegas
nas vivas
atende pedintes
dorme d'onças
madruga petecas
sacolejo qu'é firme
de moça qu'é mesmo
destas que namoradeiras
desacanhos da vida
isso tudo,
- senhora -
é só pras gentes seguir vivendo mesmo
segunda-feira, 7 de dezembro de 2015
CARCARÁ
carcará
rondando
esta mata
cinquenta anos - inda vive
cara-carcará
m'encara
olhar não nordeste
de voar
por céus sudeste
carcoragem
voltear de bico
levou pra terras sul
vidas sertanejas em busca do [...]
pega[do].
mata[do].
comi[do].
terça-feira, 1 de dezembro de 2015
IMBELEZÔ
quando a beleza é poço
o que fica da gente é camada sobreposta indescoberta
é mergulho em buracos concretos,
a procura do líquido,
escavar da areia
quando a beleza é poço
o qu'imbeleza da gente não está para qualquer queira
rendido estar de não há mais q'eu possa
são dez dedos raspando o que fossa
retornar ao recôncavo outro
de recordares baianos
quando a beleza é poçorendido estar de não há mais q'eu possa
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