quarta-feira, 6 de maio de 2015

DAS NASCENÇAS - 1. POUCO TEMPO

teve um
teve dois
teve três

eram fetos
todos eles
apontar barriga
gerados
mamãe

num aguentou pressão puerpéria não
quis foi desses direitos negados
esses direitos do não
esses do nada
esses nem quero
esses ora, por que?

ah mas é mãe num é
pois se teve ela cuida

ninguém nem reparando
naquele tal espermatozoide
parcela exata gerar
parcela abandono cuidar
parcela dá fuga crescer
parcela nem quero assumir

ninguém nem querendo saber cadê ele
-menino é assim mesmo, escapa das gentes como quem escapa do tempo-
sabedoria vovó te respeito
                               mas chegou basta oralidade
                                                  reproduzida patriarcal

trabalho de parto veio foi assim sem querer acaso
aguinha lambendo por entre as pernas
confundindo menina com o qu'escorre de sempre

percebeu foi tarde que era fagulha fetal desaguando ali mesmo
dilatação tinha não para estes ofícios mulheres
era menina ainda
os peitinhos se formando assustados sem saber guardar leite

sozinha em casa
desespero batido
gritou Medeia acionando gregários

perdeu força pia mesmo
deu nem tempo de chegar porta-rua

menino mais um
- que era o três -
escorre ralo
de pai
nem veio

teve um
teve dois
três que não

com ela
morreu foi quatro


quinta-feira, 23 de abril de 2015

BLINDADO

viu na banca
               venda livros
comprou           
casamento blindado

leu metrô
semana toda
divulgou para as amigas

aplicou técnicas
           pílulas
          diárias

livro não barrou a bala
disparada por marido
de blindar
                        total falível

- é mais um feminicídio -

domingo, 12 de abril de 2015

MOVIMENTO ATERRO - 2. ESTALO

Fortaleza em ritmos
                         e pulsar
tambor
                               coração m'eu

Acalanto sem desesperos
               ritmados
- arcor em riste na mira-minha -

M'eu peit'aberto em
                                                fórcepsforçando
película pele
de meus nãos ossos
[seguros]
[comparsas]

São mil apitos soprando
                                  nuvens
estalar agudo
             invocando
lembrar-lembranças
                                d'un tempo nada

M'inhas mãos
                           batuques
a agarrar d'artérias
[veias]
aorta
a
bombear
              meus
                                          os sonhos imberbes

o entender qu'a vida
é [a] não ausência
m'eu balançar seguro
d'plenitude ânima


quarta-feira, 8 de abril de 2015

CONSTRUR-LÍTERA

ao saber sinestesias
eram dadàs simbolistas
lambeu beiços rimbaudísticos
flertou charles/augustanjos
riscou letras
                          qualquer coisa
esporro
                         suporte
    papel-
                       forma

no'apontar lápis
geomântrico
surgir
viu
constructo-estoico
poemermético
sem assonâncias
(a)literado
de
concretismo



vidas não valem - 2. nos

sequer
       a vida
       se
                quer-
   nos


terça-feira, 7 de abril de 2015

DESA-(R)

Desa-
bafar
o bafo escroto

Desa-
fogar
o fogo ingrato

Desa-
fetar
o feto fátuo

Desa-
rochar
a rocha crack



sábado, 4 de abril de 2015

MOVIMENTO DAS ÁGUAS - 3. M'EU

Ouviu dois raios
Além
Planaltos

Luz cortando céu azeviche
Imensas nuvens
Longínquas massas porosas - ar; quem?

Horizonte áspero
de mar revolto
Cheias
Vagas
Náufrago custeando ilhas

A pororoca astrolábio esperou q'eu
surgisse aquela noite
Eu nem curtindo os clarões
Eu nem olhando o céu visse
Eu nem querendo o de fora,
natureza ouvindo,
me molhando o todo de mim.

Agua-ardar os recifes coráticos
Volteando em cheias
M'afogando
afogos
de
de-sa-foros
asmáticos

Eu em mim era toda a de dentro
Mim eu mesma
mesm'orgulhando
mergulhos

M'eu fleumático
soprando as velas
sudestes
Timão batente
rodopiando geleiras

- o vento sul de Glauber encruzilhada -
Espera'inda cinemarte revoluzcionária