domingo, 15 de março de 2015

ENCONTRO COM O SAGRADO - MARIA BETHÂNIA



foto: Gustavo Dalle Vedove

Olhar harpia
fina película protetora
travestindo o que em mim habita
por além d'as entranhas
[ desconhecenças todas minhas ]
tal qual camadas transpostas em águas correntes
líquidos fluídos
                    em cachoeirinhas mirins

dona Maria d'esplendor d'Oxum
despenca sobre minha pele
raios-jatos d'Iansã
comanda a brisa revolta
por vezes atacada em quedas
a guiar-me por onde seguir

Eu, Bárbara
nome-ventre da matriarca-avó
- mulher d'efeitos,
mulher cantiga -

Eu, Bárbara
Sincretizando a dona do raio e do vento
com santa católica,
homônima minha

O para si tocar
despencado nas delicadezas
e poesias necessárias para o fluxo contínuo
O para si tocar
não o si enquanto pronome oblíquo
mas sim tal si como o que é SE
e todas nós alterando vozes no silêncio do que se ouve.


Nesta noite o sentimento é de mais intensa gratidão.
"Gratidão por me fortalecer, por fazer com que eu me conheça, por me oferecer um conhecimento de um Brasil profundo"

Abraçar e agradecer - 15/03/2015

Bethânia encerra:
-Cinqueeenta anos de carreira.
-Cinqueeeenta.
-TEM QUE SER MULHER!


terça-feira, 10 de março de 2015

BATEU PANELIN, FOI SENHOR?

Bateu panelin, foi senhor?
Tocou no cabo-madeira
com colher de pau da feira
da janela na Pompeia
ou na Vila Madalena

foi?

Beijou a mãe pela manhã
com flores desejou feliz dia
mulheres internacionais
- mulheres mansas,
mulheres lisas,
mulheres brancas,
delgadas cozidas -
- como bem quero, homem que sou

Trepou com a esposa
lambuzando chocolate
deixou os filhos com a babá vestida branco-uniformizante
-pra que se a velha não tem mãe?
- pra que se abortou foi todos filhos?
- pra que vai querer folga?
- pra que

Comeu risoto quentinho
pelas mãos da mulher preta
na panela inox prime
revestida antiaderente

lambeu beiços bicos brancos
flores para a
                          professora da filha
                                          escola particular
- amante, claro, porque sou homem, doutor - 

telemensagem para a garota vizinha

Final noite
liga barraco mulher-doméstica

-Dona Zefa, onde guarda as panelas aqui de casa?

Dona Zefa, extremo-sul
nem ouvindo de alto ligação
panelas todas
cisternamente
recolhendo
águas das chuvas


sexta-feira, 6 de março de 2015

EM MIM EU CHEGO NO É FUTURO

crédito: Bianca Bittencourt

Em mim
                         eu chego no É futuro
não no agora
- neste É presente -
instante que nem tanto exato
mas pulso vivo d'inspirar-pulmão

                                      momento corpo mística
ressignificado
pré-sente a parábola
do querer/não querer-nos

Chego em mim no ato-próximo
d'instante meu dissimulado
no que não quis
meu É passado
- partiu desapercebido 
                                          nem foi nem não notado -
estado trans-ritualístico

quer-queira
quer-queira-não
no futuro meu eu encaixa
lá chega a léguas
que não minguadas
a passos largos
cheganças vivas


sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

IN ESCALAS


Extremo dom de nem saber.
-horas cortando em vagas
o dilatar do tempo-
-do que vai
num-volta-não-

Nem saber de-dom.
Corpo mecarrobotrônico
querendo o que não-seu
Pisando estanque
duro concreto

Interpelo sostenuto
d'intermezzo lacuna
in escalas monodramáticas

repertório qu'é meu cindido
n'oratório desarregrado
d'amar/resguardo
D'afago em si
Afogo em mi
Há fogo em sol

Traçar d'ofícios
de querer vida
pr'além do simples
rotinerante



segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

SUB-IN-MERSA

crédito: Tata Ogan
por ora calmaria

sopro n'orelha
subaquática
brisa imersa
de
nem zumzum
zunir
zumbido

quietin
deságua
o
que
foi
silêncio

outro dia
agito
ruído
arranhar de pickup
beatbox

tocando miúdo
mbira
miado

liquidelava
liquidalama

lavar
neurônios
lamar
ramais
canais
d'entranhas
aminoácidos

ofélia negra
não quer mais príncipe
mulher woolf
largando as horas


sábado, 21 de fevereiro de 2015

PISA, MENINA

foto: Lais Borgom
Era eu água brava
fervo de compor nos picos

-cachueirim desabesta nas muléstias quentes
visse?

pingo revolto de disse -oi, caiu foi?

bateu lá nos grelhos
ensopou tampanela;
só gritinho torneado
querendo o que não tinha mais não

-aparte
-aparte a vida, belinha
-essa aqui já se finda
num sabe?

Era a menina batismo
menina tigela com aguinha padre-bento
líquido gela barriga-vermicida

zóinnnn aporrinhado de tanto olhar vida passar
gente passar
maré passar

só o que tinha fresta foi passou longe, sabiste não?

ela ficou lá parada beira-estrada
desacreditando de tudo
bracinho cruzado
pé batente chão de terra

num esperou nem vento amansar pensamento ruim
foi logo botando sandália
- estrada longa era aquela -