sábado, 22 de fevereiro de 2014

MATÉRIA DE FÁBULA DOS PEQUENOS GRÃOS

Matéria de fábula:
Inspiração noturna

Ser um ser
Único
Indivisível
Irrepartido

Ser um ser no mundo
Coletivizado
Mediado
Partilhado

Ser um ser no universo
Bilhões fracionado
Particularizável
Ínfimo

Ser um ser
Macro - micro
Micro - macro

Pequenas revoluções cotidianas

Olhar para o entorno visando atingir o cosmos

Energeticamente
Concretamente


segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

WALT WHITMAN, MEU PENSAMENTO EM TI



Walt Whitman, meu pensamento em ti.

desço à beira das colinas, bem ao modo como tu me ensinastes.
no entanto eu nada enxergo.

Estou cega, meu poeta.

Você que me ensinou a olhar para os lados sem me esquecer do atrás e do adiante.
você que me fez me lembrar de todas e todos - feminino e masculino, como você, vanguardista poeta, verso-livre-livrou.

Esta manhã, em frente à janela, observo um mundo de abismo diante de mim.
seus versos correntes, soltos e longos, suas aliterações, seu encadeamento de livre-pensar ainda teriam espaço nos dias de hoje?

A resposta é sim, caro velhinho.

Você está contente por isso?
se satisfaz?
sente a brisa ondular suas cãs?

Ou, quem sabe, talvez preferisse o abraço de amantes nos corredores das estações.
Dejetos de esgoto abraçando mendigos nas vielas.
Uma criança que nos pergunta o irrespondível.

O que prefere, meu amigo?

até eu, meu senhor, até eu me embaraço nas preferências.
(- por vezes a vontade é mesmo seguir Bartleby em sua vidinha mais ou menos -)

mas foi você quem me ensinou a seguir assim, viajante de mim e não parar nunca mais.

Não parar nunca mais.

Observo sua barba.
seu olhar melancólico.
sua tez acentuada.
a fina elegância de um traje que não compactua com sua poesia.

É para ti que eu canto esta canção.

Canção de mim mesma?

Me deite na relva.
Me deixe vadiar.

Só não permita que ela cubra meu corpo e que lá eu permanece etérea, eterna.

é para a vida que você cantou.
e é dela que eu necessito.

"Pois depois de partir não vamos mais parar"



sábado, 16 de novembro de 2013

VER E MIRAR - CONTEMPLAÇÃO DE UNS OLHOS MEUS (da série Fragmentos do corpo)



É olho antigo de quem muito viu.

Negrume pelota a penetrar a imensidão de um branco perdido;

Esfera infinda a contemplar os movimentos do mundo
de quem crê - descrê - persiste - insiste

[se o olho da verdade soubesse seu potencial exato, quanto de nós restaria?]

A vida cíclica de girar os andaimes do mundo

Mirada apopléxica de uma veia que bombeia

- Eu vi os mundos caindo sobre meus ombros -
- sobrevivi -
- Eu vi os dejetos de quem submergia do antro -
- sobreviveram -
- Eu vi nos imundos dos becos lembranças antigas de tempos originários -
- sobrevieram, regressaram, não mais voltaram -

-Parem agora. Para que prosseguir se o tempo que resta é o tempo frágil de um instantâneo olhar-mirada?

A possibilidade do infinito nos impõe às cegas

Vejo com meus dedos, meus poros, meus fios de cabelo, meus cílios-pentelhos

Ver a vida com veracidade de quem acredita

- como quem reza baixinho, de olho fechado, e jura ver além do concreto-materialista-

"por ora me mira. me mira-mirada na morada do mar"



quinta-feira, 19 de setembro de 2013

DAS ILUSÕES COTIDIANAS

O domingo pela manhã me levou o vento
Bateu flutuante pelas frestas, arrancando o pôster pendurado na parede da garagem.

Era vento-redemoinho
Desassossego corsário de um dia sem fim.

Era vida cotidiana.
Vida besta dia-pós-dia.

Nos encontrávamos nos momentos mais banais
As gotas cortando o asfalto
Suores respingando banalidades
dias-horas-meses-possíveis-anos de uma eternidade que quis ela possuir

Era pequena ilusão perdida
O velho Balzac martelando na cabeça;
-o título de um livro que nunca nem folheou -

Era vivência de uma possibilidade
Mais uma tentativa de um ato falho que cismava em se prolongar
-a cadência de um membro que não cessa seu movimento -

Era a perda de uma esperança
E a lembrança da fatalidade da vida

- o recordar que, sim, um dia tudo se vai -


quarta-feira, 11 de setembro de 2013

MÍDIA DEMOCRÁTICA ENQUANTO ESCRITA DA "HISTÓRIA A CONTRAPELO" (ESBOÇO DE UMA REFLEXÃO)

Atitude muito utilizado ao longo da trajetória de dominação da classe reinante como tática de manutenção do poder, o desaparecimento do registro de fatos históricos que concerne à possível ruptura e destruição de um status quo deu-se sempre como prática naturalizada no decorrer dos séculos.

Tendo em vista que o estudo da história da humanidade se apresenta majoritariamente como o estudo das classes no poder, contado sempre do ponto de vista do vencedor, nada mais coerente com os ideais hegemônicos vigentes do que a ação de queima de arquivos do metrô praticada por tucanos desejosos da continuidade de historicização dos fatos sobre o ponto de vista de quem rege o poder.

No entanto, se esta análise da história contada sempre pelos vencedores, apontada por Walter Benjamin em seu texto Sobre o conceito de história, funciona indefectivelmente em toda a história da humanidade até o momento em que Benjamin a publica, em 1940, a explosão das tecnologias e, sobretudo, o uso da internet demonstra a possibilidade de, mais do que nunca, se"escrever a história a contrapelo" - tarefa a qual compete um verdadeiro materialismo histórico.

Apesar deste processo muitas vezes não se dar de modo consciente, o fato é que a velocidade de se espalhar as notícias sobre a queima de arquivos via internet gera um conhecimento e possível reflexão ampliada sobre o assunto. A partir daí, uma possível cobrança e questionamento sobre o fato se torna mais apresentável.

O que trazemos aqui não é nada novo, na medida em que é de conhecimento geral a abertura de alcance e democratização oferecida pela internet. No entanto, o que queremos chamar a atenção é o fato de que esta ação permite contar a história não mais, ou não somente, pela manutenção do ponto de vista dos vencedores, mas sim como escancaramento das ações não-éticas destes, permitindo trazer à tona uma contradição inerente a tal poder hegemônico, incitando um novo olhar ao que encontramos atualmente estabelecido.



terça-feira, 3 de setembro de 2013

PARA A PRÓXIMA TEMPORADA

Era matéria de desacontecimento.
O corpo beirando o extremo.

Você que chega no esmiuçar da noite.
Fala baixinho para não me deixar captar o grau de tolerância contido em seu sussurro.

A vida poderia ter sido.
Naquele momento - sim - ela poderia ter sido um infinito de possibilidades que nos escapou por entre o cotidianizar de ex-novidades.

Você suspira.
Eu silencio.
Gosto deste teu jeito de tornar suspense um fato leviano.

Eu que não sei quase nada do que fomos.
Corremos feito cavalos bravos por entre as selvas desmatadas.

Desta vez eu não vou escapar.
Desta vez eu não posso escapar.
- e talvez eu mesma não queira -

Se você vem, com que mãos conseguirei dizer que parta?

O bom mesmo é adiar a chegada.
Ins-tan-ta-nea-men-te.

E torcer para fazer sol na próxima temporada.

Oxalá nos reencontremos.