terça-feira, 12 de março de 2013

CHÃO DA MINHA TERRA

Hoje é mais um dia
Fincarei meus dedos no chão da minha terra,
Debulharei o trigo,
Colherei abacates nos pés de manga.

É refazenda.

Não se passa um dia sem que eu,
unhas sujas,
não encare Gaia.

Nenhum dia é passado sem que eu,
pés descalços,
não ouça o retumbar de meu peito.

Aqui ecoam gritos de milhares.

Eu, Anita, a carregar as pedreiras do mundo.
Anita-mulher-rocha-sobre-rocha,
a arder num sol que impede
o rolar das águas de março.

O verão não fechou,
As gotas de chuva secaram,
O salário é minguado e o suor de meu trabalho
não trouxe a revolução.

É novo tempo de espera;
Tempo-sólido-pedra-sobre-pedra

Um martelo que bate,
um facão que atravessa,
uma serra que encerra
os limites da mata espessa.

Semi-árido-extra-seco do sertão
(não era este um país tropical?)

De volta o novo dia:
lá estão meus dedos ásperos a arar a terra

-meus dedos móveis enlameados a cozinhar o trigo esparso do jantar

-Pois venha, Joana, venha comer, minha filha

: mesmos dedos passíveis de apertar o gatilho

: guardo em mim o ímpeto rebelião

: por ora, é torcer para que os milicos não apareçam

: e praticar [tiro ao alvo] sempre

: -Quem disse que os donos da terra vencerão novamente?



terça-feira, 5 de março de 2013

OFICINA TEATRO DO OPRIMIDO - TENDAL DA LAPA

Além da oficina na Oficina Cultural Luiz Gonzaga, eu também ministrarei uma Oficina de teatro do oprimido no Tendal da Lapa:

INICIAÇÃO AO TEATRO DO OPRIMIDO 
Profª Bárbara Esmenia
terças feiras, das 14h às 16h30
início: 19/03/2013 - 30 vagas
idade mínima: 13 anos


Espaço Cultural Tendal da Lapa
rua Guaicurus, 1100
rua Constança, 72

Tel: 3862-1837

Participem!



OFICINA DE TÉCNICAS DO TEATRO DO OPRIMIDO - OFICINA CULTURAL LUIZ GONZAGA

As oficinas culturais do Estado estão com as inscrições abertas:

http://www.oficinasculturais.org.br/

E eu ministrarei uma de Teatro do oprimido na Luiz Gonzaga, a de São Miguel:

OFICINA DE TÉCNICAS DO TEATRO DO OPRIMIDO
Coordenação: Bárbara Esmenia
22/3 a 24/5 – sextas-feiras – 14h15 às 18h15
Público: estudantes de teatro a partir de 13 anos
Inscrições: 25/2 a 13/3
Seleção: aula aberta (15/3 – sexta-feira – 14h15)
15 vagas

A oficina apresenta um panorama do repertório metodológico e das técnicas concebidas por Augusto Boal, tais como teatro-imagem, teatro-jornal, teatro invisível, teatro legislativo e teatro-fórum, culminando com a experimentação de montagem de uma cena de teatro-fórum.

Cursando Artes Cênicas no Senac, Bárbara Esmenia é integrante do coletivo Transitório de Teatro de Rua e do Núcleo do Teatro do Oprimido da Unesp. Seu projeto “Pisando na Lama – teatro ambulante nas comunidades” foi contemplado pelo ProAC e resultou no espetáculo “Minha Vida Ta Bacana?” (2012).


Oficina Cultural Luiz Gonzaga
Rua Amadeu Gamberini, 259 - São Miguel Paulista - Cep: 08010-110 - São Paulo - SP
(11) 2956-2449 / 2058-1200 | luizgonzaga@oficinasculturais.org.br
Funcionamento: Segunda a sexta-feira das 14h às 22h e sábado das 14h às 18h


Ficarei contente com a participação de toda/os, poderemos aprender muito junta/os. Peço a gentileza de divulgarem, obrigada.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

O QUE ME ESCAPA


Eu não sei o que de mim me escapa.
Eu, que acredito em tudo.
Eu, que escovo os dentes antes de dormir.
Eu, que frequentei a catequese.
Eu, que votei no referendo passado.
Eu, que escrevi cartas de amor.
Eu, que enviei cartas de amor.
Eu, que não sei o que é o amor.

Correndo pelo mundo no desespero da busca,
Sempre aquela velha melancolia que bate, bate,
pulsa firme pelos troncos que não se limitam aos arbustos.

São troncos meus, tu reparastes?
Não são as velhas árvores da floresta,
são partes de meu esqueleto ainda juvenil que um dia o desgaste o tombará na alcova.

Isso tudo me escapa,
despossui-me,
faz de mim sujeito-EU
- o elo vago de uma tarde de encontro com si mesma.
A vida é.
Não termina.
É muito, eu sei, mas quem disse que não sou simpática aos excessos?

E então, quando acabar, eis que novamente o que é de mim me escapa.
Não posso me segurar por inteira.

Pois vá.
Parta.

Mas não demore pois a vida, sim, agora sei, esta também se finda.



LASCAS E SOLAS


De repente, como quem acorda em um jazigo, assustadoramente brotou na sola de meus pés uma lasca de amor.
Doía. Eu não queria.
Era quase que impossível continuar a caminhar pelas trilhas deste mundo com aquela lasca marcando sua presença a cada toque de meu pé esquerdo pelos diferentes tipos de solo.
A primeira atitude imediata foi cutucar com uma agulha, de modo com que a lasca escapulisse para fora.
Não deu outra: como quem se encolhe com dedos coceguentos na barriga, aquela farpa de madeira se meteu mais para dentro, quase que se acobertando com a fina camada de pele que a envolvia.
Sem muito o que fazer, fui convivendo com aquilo.
Aos poucos, a sensação de incômodo foi deixando de aperceber-se e eu quase que não a notava. Eram dias atrás de horas seguidas de cronos de aprendizagem da convivência com o desconhecido.
Deixei-o instalar-se naquela que era a minha sola e o que era uma angústia inicial, tornou-se, ao final, um nem-aí despercebido.
Sorrateiramente aprendi a lidar com o amor e ele, aquietado em seu buraco, manteve-se ali, tranquilo, no mais intricado de minha pele a lembrar-me de sua condição atávica: era ele para sempre, uma fagulha de eternidade, até que, por fim, a morte viesse e secasse o fio de sangue que corria por minha sola.



O TEMPO E A CALHA

"O tempo se esvai pelos canos que desembocam em deságuas.
Um dia calha da calha estar entupida e o tempo fica – a conta-gotas homeopáticas.
Líquid'estanque no quedar abismo;

escorrer lânguido pelo velho piso”


VISITA NOTURNA [A GATA]

Habita uma gata que me visita todas as noites.
Abro a porta de casa, ela nada me diz.
Por vezes, nem sequer esfrega seu corpo peludo em minhas pernas.
Afia as unhas no sofá e segue a deitar-se em minha cama.

Mas ali... naquele estrado de minha intimidade em que transpiro e sonho paisagens quiméricas, sei que ela se depara com o mais profundo de mim mesma.

E, por isso, secretamente, ela descobre que me ama.

Contudo... dissimula.

Nao cabem às gatas revelarem seus sentimentos